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Um rio de percepções

Um rio de percepções

 
Thich Nhat Hanh
 
Ficamos sentados durante cerca de 40 minutos. Vejo que meu amigo está sorrindo ao olhar para o suco. Ele ficou muito claro. "E você, meu amigo, como se sente? Mesmo que não tenha se acomodado tão completamente quanto o suco de maçã, você não se sente um pouco menos agitado, menos inquieto, menos perturbado? O sorriso em seus lábios ainda não desapareceu, mas acho que você duvida de que possa ficar tão claro quanto o suco de maçã, mesmo que fiquemos sentados horas a fio.O copo de suco tem uma base extremamente estável. Mas, no seu caso, a maneira como você se senta não é tão firme. Os minúsculos fragmentos de polpa precisam apenas seguir as leis da natureza para tombar delicadamente no fundo do copo. Mas seus pensamentos não obedecem a uma lei desse tipo. Ao contrário, eles zumbem febrilmente, como um enxame de abelhas, e por isso você acha que não é capaz de se acomodar como o suco de maçã.
Você me diz que as pessoas, seres humanos com a capacidade de pensar e sentir, não podem ser comparados a um copo de suco. Concordo com você, mas também sei que podemos fazer como o suco de maçã, e mais ainda. Podemos ficar em paz, não apenas quando sentados, mas também enquanto caminhamos e trabalhamos.Talvez você não acredite em mim, porque 40 minutos se passaram, você se esforçou muito, mas não foi capaz de encontrar a paz que tanto procurava. Thuy está dormindo tranqüilamente. sua respiração é leve. Por que não acendemos outra vela antes de continuarmos nossa conversa?
A pequena Thuy dorme dessa maneira sem fazer esforço. Todos conhecemos noites em que o sono nos escapa, e quanto mais tentamos dormir, menos o conseguimos. Tentamos nos forçar a ficar tranqüilos, e sentimos a resistência dentro de nós. Esse mesmo tipo de resistência é sentido por muitas pessoas durante suas primeiras experiências com a meditação. Quanto mais tentam se acalmar, mais inquietas ficam. Os vietnamitas acham que isso acontece porque são vitimas de demônios e de um karma mim, mas na verdade tal resistência tem origem em nossos esforços paraficarmos tranqüilos. O esforço em si torna-se opressivo. Nossos pensamentos e sentimentos fluem como um rio. Se tentarmos interromper o fluxo de um rio, encontraremos a resistência da água. É melhor fluir com ele, e depois conseguiremos guiá-lo pelos caminhos que queremos que percorra. Não devemos tentar detê-lo.
'Tenha em mente que o rio precisa fluir e que vamos segui-lo. Precisamos estar conscientes de cada pequeno regato que se une a ele. Precisamos estar conscientes de todos os pensamentos, sentimentos e sensações que surgem em nós - da sua origem, duração e desaparecimento. Você percebe? Agora a resistência começa a desaparecer. O rio das percepções ainda está fluindo, porém não mais na escuridão. Ele flui agora na luz da consciência. Manter esse sol sempre brilhando dentro de nós, iluminando cada regato, cada seixo, cada curva do rio, é a prática da meditação. Praticar a meditação é, em primeiro lugar, observar e seguir esses detalhes.
No momento da percepção sentimos que estamos no controle, embora o rio ainda esteja no mesmo lugar, ainda esteja fluindo. Nós nos sentimos em paz, mas esta não é a 'paz' do suco de maçã. Estar em paz não significa que nossos pensamentos e sentimentos estejam paralisados. Estar em paz não é a mesma coisa que estar anestesiado. A mente tranqüila não é a mente desprovida de pensamentos, sensações e emoções. A mente tranqüila não é a mente ausente. Está claro que nosso ser não é composto apenas pelos pensamentos e sentimentos. A raiva, o ódio, a vergonha, a fé, a dúvida, a impaciência, a repulsa, o desejo, a tristeza e a angústia também fazem parte da mente. A esperança, a inibição, a intuição, o instinto, a mente subconsciente e inconsciente são igualmente parte doeu. O budismo Víjñanavada analisa em profundidade os oito estados mentais principais e cinquenta e um subordinados. Se você tiver tempo, talvez queira dar uma olhada nesses comentários. Eles abrangem todos os fenómenos psicológicos."



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