Amor e compaixão

Amor e compaixão

 

 
Do livro "A expanção da mente" de Tarthang Tulku

Aqueles que são dados à meditação, que são firmes, que na paz do retiro se deleitam, Estes seres plenamente atentos e perfeitamente iluminados, até mesmo os devas invejam. Raro é o nascimento como ser humano, difícil é a vida dos mortais; Difícil é ouvir o sublime Darma, raro é o aparecimento de Budas.

Dhammapada versos 181 e 182

 

 

Amor e compaixão

Ao aprofundar nossa compreensão da existência, abrimos a porta que leva à compaixão. O desenvolvimento de uma consciência da dor e da ignorância que nós, bem como os outros, vivemos, estimula simpatia e, depois empatia. Esse crescente interesse pelos outros inspira um sentimento de amor - um amor que perde suas ligações com os nossos conceitos e sentidos, um amor que é sem sujeito nem objeto.

A compaixão é a capacidade de sentir plenamente a situação de uma outra pessoa. Relacionamentos familiares próximos ajudam a desenvolver essa capacidade, mas hoje em dia, o senso de união da família não é forte. Sem o apoio da família tendemos a nos retrair para dentro de nós mesmos. Já que achamos tão difícil nos relacionar com os outros, mesmo com nossos amigos, dedicamos nossos esforços para proteger a nós e aos nossos bens materiais. Nosso interesse raramente vai além de nós mesmos, além das nossas necessidades e desejos pessoais. O cuidado para com os outros e a sensibilidade em responder a eles, ambos fundamentais à compaixão, têm pouca chance de se desenvolver.

Um modo de aprender compaixão é cultivar o desejo de ajudar os outros. Este simples gesto abre, automaticamente, o coração. Nós alargamos nossas perspectivas e aumentamos nossa sensibilidade às necessidades dos outros, e isso, então, nos leva a desenvolver a capacidade de, efetivamente, servir de ajuda. Por fim, podemos aprender a amar sem qualquer motivo ulterior ou qualquer sentido de ego. Esse sentimento de amor altruísta estimula uma abertura que permite à compaixão surgir naturalmente. Podemos, então, agir com habilidade e compaixão em todas as circunstâncias.

- Como aprendemos a pôr de lado o fato de sermos centrados em nós mesmos?

Quanto mais aberto você se deixar ser, mais você será capaz de se comunicar com seus amigos, com sua família, com qualquer pessoa. Abertura, num sentido último, significa compaixão. Em vez de reprimir ou tentar evitar seus sentimentos, abra tanto quanto puder seu coração, seus sentimentos toda a sua personalidade. Abra-se para seus níveis mais fundos de sentimentos. Você pode fazer isto por meio do relaxamento, que é a chave da meditação.

Fique muito quieto, respire muito delicada e suavemente, e mantenha sua mente na presença da atenção pura. Uma vez que o relaxamento tenha se estabelecido deste modo, você irá curar seus sentimentos interiores. Então, um calor interior virá. Com este calor e este relaxamento interiores, você sentirá mais abertura e, com essa abertura, mais comunicação. Visto que o calor interior se transmuta em sabedoria, você será capaz de ver as situações das outras pessoas mais claramente, e, com essa clareza, poderá também aprender mais sobre você mesmo. Você poderá abrir-se para sua natureza interior.

Quando seu coração se abre verdadeiramente, você pode se comunicar com todos os seres, com toda a existência. Pode ver a natureza do samsara. A abertura é a chave da compaixão, de modo que, quando você conseguir desenvolver uma abertura maior, o ego e a tendência a agarrar as coisas para si perdem sua força. Quando estiver assim menos autocentrado, poderá ver que cada indivíduo tem que passar por este ciclo do samsara. Você aprende a ter mais aceitação, e a compaixão cresce em profundidade e se torna mais abrangente.

A compaixão autêntica está além dos pensamentos, além do "ego", livre de qualquer crença de que há um "eu" presente no ato da compaixão. A verdadeira compaixão, portanto, gera um sentido profundo de aceitação, e mesmo de perdão, com relação àqueles que nos causaram dor ou infelicidade. Quando somos sensíveis às fraquezas e egoísmos dos outros, percebemos que o mal que fazem é feito simplesmente por ignorância.

- Como posso desenvolver um coração mais compassivo?

- Trabalhe com alegria junto com as outras pessoas e coloque tanta energia em seu coração quanto puder. Seja natural e jovial.

Aprenda a aceitar os outros mesmo com suas falhas. Embora o mais alto sentimento positivo seja chamado de amor, até mesmo o amor é limitado pela relação sujeito-objeto: tentamos fazer com que aqueles que nos são próximos se enquadrem dentro do que sentimos que devam ser. Eles podem ser nossos amigos, nossos namorados, nossos filhos, ou mesmo Deus ou Buda. A compaixão aceita os outros como eles são. A pessoa que compreende a compaixão por inteiro não vê mais qualquer separação entre "eu " e "outros". A compaixão é a resposta saudável e espontânea a todas as situações.

- Parece importante ajudar o próximo por compaixão. No entanto, muitas vezes não sei o que fazer; sinto-me ignorante e impotente na maioria das situações.

- A melhor maneira de mostrar compaixão é por meio do desejo de ajudar. Quando você não puder fazer nada numa situação, simplesmente deseje com sinceridade poder ajudar. Embora esses sejam apenas pensamentos, ter bons pensamentos é algo que tem valor. Você pode também se dar conta de que o motivo pelo qual não consegue ajudar é porque lhe faltam sabedoria e força espiritual. Mas o desejo irá encorajá-lo e fortalecerá a sua prática. Quanto mais você desenvolver a sua prática, mais força terá para ajudar os outros.

O desejo consiste não apenas em palavras, mas em um sentimento profundo que vem do fundo do seu coração. Quando você tiver cultivado esse sentimento com vigor, então a disposição virá, e, depois a abertura. A esta altura, você consegue agir de modo eficaz. É assim que a compaixão começa. Você vê os problemas dos outros, sente sua dor, sua mágoa seu sofrimento. Seu desejo de ajudar se torna mais forte, conforme você se abre mais e sente com maior profundidade.

- Às vezes, parece muito egoísta dizer: "Não posso fazer nada".

- Não quando você, de fato, quer ajudar com todas as suas forças, mas sabe que, na realidade, simplesmente não há nada que possa fazer.

Para ajudar os outros, você precisa ter, ao mesmo tempo, sabedoria e força, o que significa compaixão. Quando uma destas qualidades ou ambas estão faltando, é difícil ser bem-sucedido. Apesar de você ter boas intenções, a falta de força significa falta de eficácia. É melhor desenvolver sua atenção plena, sua força, sua capacidade de agir.

Primeiro, você precisa adquirir sensibilidade para ver o que uma situação contém dentro de si; então, poderá lidar com ela de modo apropriado.

Sem preparação, é difícil levar a cabo boas idéias.

- Sabedoria e meditação soam muito semelhantes para mim. Qual é exatamente a ligação entre elas?

- A sabedoria e a meditação se tornam muito semelhantes. Meditação é atenção pura; e, quando esta atenção se desenvolve, ela se transforma em sabedoria. Quando entendemos o sofrimento dos outros, podemos cultivar o desejo de ajudar; depois, a disponibilidade para ajudar; então, nosso coração se abre. A sabedoria nos permite ver o que pode ser feito e nos dá a capacidade de aliviar o sofrimento dos outros.




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