O Diálogo: a chave da paz

O Diálogo: a chave da paz

 

 
Thich Nhat Hanh
 
Há mais de 30 anos venho trabalhando pela paz: combatendo a pobreza, a ignorância e a doença; ajudando a salvar boat people no mar; evacuando os feridos das zonas de combate; arranjando novos lares para os refugiados; ajudando crianças e órfãos famintos; fazendo oposição ás guerras: produzindo e disseminando a literatura em prol da paz; treinando assistentes sociais e aqueles que trabalham pela paz; e reconstruindo lugarejos destruídos pelas bombas. Em virtude da prática da meditação - parando, acalmando-me e examinando as coisas em profundidade - , tenho sido capaz de alimentar e proteger as origens da minha energia espiritual e dar continuidade a este trabalho.
Durante a Guerra do Vietnã, pude observar comunistas e não-comunistas matando-se e destruindo-se uns aos outros porque cada lado acreditava que tinha o monopólio da verdade. Muitos cristãos e budistas no nosso país estavam lutando uns contra os outros em vez de trabalhar em conjunto para acabar com a guerra. Escrevi um livrete intitulado Dialogue: The Key to Peace mas minha voz foi abafada pelas bombas, morteiros e gritos. Um soldado americano, de pé na parte de trás de um caminhão militar. cuspiu na cabeça de um discípulo meu, um jovem monge chamado Nhât Tri. O soldado deve ter pensado que nós, budistas, estávamos debilitando as atividades bélicas norte-americanas ou que meu discípulo era um comunista disfarçado. O irmão Nhât Tri ficou tão zangado, que pensou em deixar o mosteiro e ingressar na Frente de Libertação Nacional. Como eu vinha praticando a meditação pude perceber que todos na guerra eram vítimas, que os soldados americanos que haviam sido enviados para o Vietnã para bombardear, matar e destruir também estavam sendo mortos e mutilados. Instei com o irmão Nhât Tri para que se lembrasse de que o G.I.(?) também era vitima da guerra, vitima de uma perspectiva errada e uma política errada, e insisti com ele para que continuasse a trabalhar pela paz como monge. Ele foi capaz de compreender isso e tornou-se uma das pessoas mais atuantes na Escola da juventude para o Serviço Social.
Vim para a América do Norte em 1966 para tentar ajudar a desfazer algumas das concepções erradas que estavam nas origens da guerra. Reuni-me com centenas de indivíduos e pequenos grupos, bem como com membros do Congresso e com o secretário de Defesa, Robert McNamara. A visita foi organizada pelo Fellowship of Reconciliation, uma organização para a paz formada por diferentes doutrinas religiosas, e muitos cristãos atuantes ajudaram-me nessa tentativa, entre eles o Dr. Martin Luther King Jr., o padre Thomas Merton e o padre Daniel Berrigan. Com efeito, esses foram os americanos com quem tive mais facilidade de me comunicar.



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